Rendas!
Pra você uma renda pode ser só uma renda. Mas para uma cigana é alma. Da roupa. Da cor. Da saia. Do movimento.
É a renda certa, costurada no lugar certo, com o ponto certo, do jeito certo, que faz a cadência das cadeiras da cigana rebolar.
Por acaso o senhor conhece o gingado da cigana? Provavelmente não! O senhor vê apenas as rendas, mas não o que elas realmente querem dizer.
A renda não é um enfeite malfadado a ficar costurado, estampando o tecido brilhante, como um ingrediente aleatório, de uma roupa espalhafatosa.
Não meu senhor, nada disso...
A renda é fundamental.
É incremento. É tempero de cigana. É magia do olhar. É a essência. Nela sabemos se a roupa vai causar impacto - e qual tipo de impacto ela causará.
A renda é a mensagem principal da roupa.
É o que deixa aquele traje típico - porque a roupa da cigana você sabe que é de cigana - no ponto certo para mostrar: "estou aqui".
Essa é a mensagem exata que essa roupa coberta de renda tem que transmitir - Eu Estou Aqui! Eu Existo.
Eu sinto, eu sofro, eu choro. Eu vivo dilemas existenciais. Eu tenho fome, sede e frio. Eu pago contas. Eu ando nas ruas e esbarro em pessoas. Eu ando descalça nas praças, com minhas pulseiras brilhando ao sol. Mas eu tenho rendas.
Não meu senhor, eu não roubo crianças. Eu uso rendas! Muitas! E não é "quanto mais melhor", isso viraria algo alegórico!
É na medida certa. Exata para não apagar meu sorriso dourado, tampouco me esconder na multidão. Não meu senhor! Minha renda tem tradição. Tem vida. Ela fala mais sobre mim do que eu mesma poderia dizer.
Eu não quero o que te pertence. Nem seu ouro ou sua cultura. Nem sua música ou sua comida. Nem sua casa ou seu teto. Só quero a minha renda.
Mas eu também quero fitas costuradas sobre a renda. Como um contorno delineando seu intrincado desenho. Quero brilho - na medida certa - porque a cigana, meu senhor, não usa a mais. Não exagera. Não quer palco. A cigana só quer ir e vir, entre fitas e rendas. A cigana só quer existir. A cigana quer voz! A renda fala da cigana, sem proferir palavra. E é por isso que eu uso a minha renda.
Portanto, ao vir minhas rendas brilhando lá longe, não veja uma costura, veja a minha voz!
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